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A cognição social e o equilíbrio entre vínculos e limites

cognição social

Todos nós precisamos do outro para viver e ascender. Porém, a convivência pode ser um tanto quanto difícil. Encontrar um equilíbrio depende de exercitarmos a nossa capacidade de interagir uns com os outros e do estabelecimento de normas que permitam a formação de alianças e, ao mesmo tempo, delimitem espaços.

Cognição social é o nome dado ao processamento mental da informação que permite estabelecer esse relacionamento interpessoal a partir do reconhecimento, da interpretação e da ação dos indivíduos em interação com outros. Na perspectiva da neurociência cognitiva, seu funcionamento requer que sistemas neurais especializados avaliem os sinais sociais do ambiente. Entender esse processamento, explorando a maneira como compreendemos uns aos outros e a nós mesmos e adequamos nossos comportamentos, é indispensável quando se considera o impacto das relações na manutenção de vínculos e limites saudáveis.

Em 1999, o Dr. Ralph Adolphs, da Universidade de Iowa, respeitado pesquisador e percursor nessa área de investigação, publicou um artigo no periódico Trends in Cognitive Sciences em que constatava haver um consenso a respeito da complexidade do desenvolvimento cognitivo social em humanos, já que ele parece derivar de uma imbricada interação entre genes, comportamento dos cuidadores e cultura.

Ancorada na abordagem evolucionista, essa visão supõe que a cognição social tenha surgido da interação dinâmica entre dois fatores relativamente paradoxais: em primeiro lugar, da necessidade de estabelecer vínculos que tragam segurança e apoiem a melhor escolha de parceiros e de alimentos confiáveis; em segundo lugar, da importância de criar limites visando harmonizar essa oferta para competidores dentro do próprio grupo e, eventualmente, estender recursos para fora dele.

Essa linha de pensamento ajuda a explicar as bases por trás dos comportamentos sociais que chamamos de cooperação, altruísmo, empatia e confiança, bem como a entender os mecanismos subjacentes às necessidades de controle, coerção, engano e manipulação. Esses comportamentos podem ser observados em maior ou menor proporção, tanto em grupos pequenos, como famílias, quanto em grupos maiores, como empresas, instituições e sociedades.

Atualmente, os pesquisadores estão muito interessados em desvendar os sistemas neurais que atendem a vários aspectos da cognição social. Uma publicação recente, feita pela prestigiada revista Frontiers in Human Neuroscience, sintetizou parte desses achados em um caderno especial intitulado Neuroscience of Human Attachment. Dos temas destacados, os dois mais relevantes para esta discussão dizem respeito: à replicação de descobertas relacionadas ao duplo processamento das informações ligadas ao apego e, por consequência, da formação e sustentação dos relacionamentos; às diferenças individuais, gerando implicações para a avaliação tanto dos vínculos quanto dos limites.

Nosso cérebro está equipado para processar informações afetivas (que reforcem ou limitem os laços) de maneira muito rápida, com baixa ou nenhuma participação da consciência. A vantagem é que isso demanda pouca energia mental. Mães, pais e demais membros de um sistema de cuidados parentais, por exemplo, tendem a apresentar maior ativação automática para estímulos ameaçadores quando eles impõem riscos aos seus pupilos. O problema é que toda essa automatização tem um custo, que é a limitação da consciência e o eventual afastamento de julgamentos mais cuidadosos e orientados a objetivos mais importantes ou de longo prazo.

Apesar dessa tendência, a boa notícia é que os níveis de reatividade aos estímulos socialmente relevantes diferem entre as pessoas. Algumas questões importantes presentes nos sistemas sociais de decisão, como avaliar quando distribuir os recursos, para quem e o quanto, podem se beneficiar dessas diferenças. Está em nosso poder criar estratégias que nos protejam de ações irrefletidas, voltadas ao bem-estar individual, em prol de nossas redes de apoio sociais. As estruturas de governança familiar e corporativa, por exemplo, caminham nessa direção, pois ajudam a ponderar os pensamentos e as intenções individuais de seus membros, bem como a lidar com a diversidade cognitiva rumo ao alcance dos objetivos maiores da organização.

 

Por Keitiline Viacava, Ph.D. – Diretora de educação corporativa e professora em cognição executiva no DM.Lab. Realizou pós-doutorado em neurociência cognitiva na Universidade de Georgetown, em Washington, D.C., e é doutora em Psicologia pela UFRGS. Ainda, é associada da Society for Neuroscience (SfN) e da Academy of Management (AoM), ambas nos Estados Unidos.