A família em transformação

A família contemporânea e suas transformações diante da mudança cultural em que vivemos no último século está no centro das discussões do primeiro encontro do Rodas de Conversa, que será realizado no dia 27 de junho, no Instituto Ling.

Promovido pelo Instituto Sucessor, o Rodas de Conversa é um encontro mensal no qual especialistas são recebidos para abordar diversos aspectos da família. O primeiro convidado é o psiquiatra e psicanalista Luiz Carlos Osorio.

Confira a entrevista que o Instituto Sucessor fez com Osorio.

IS – Em seu livro Como trabalhar com sistemas humanos: grupos, casais e famílias, empresas o senhor explica que a família contemporânea é fruto de uma crise, palavra que em sua origem, do grego krisis, significa o ato ou faculdade de distinguir, escolher, decidir e/ou resolver. Como ela impacta o dia a dia das famílias?

Luiz Carlos Osorio – Tivemos uma mudança de paradigma significativa no conceito de família. Originalmente, família era a fusão de um casal, o que era uma ilusão, pois em muitos casos, o homem e a mulher viviam separados, sem ligação afetiva, mas com uma aparência de unidade. O homem exercia o papel de provedor e a mulher de cuidadora da casa e dos filhos.

IS – Essa mudança também foi influenciada pela entrada da mulher no mercado de trabalho?

Osorio – Sim. Houve uma busca por maior individuação. A mulher deixou de ter mais um papel de submissão, no qual ela se fundia aos desejos e planos do marido, para dedicar-se a sua própria carreira. Em contrapartida, os homens têm descoberto os prazeres de cuidar da casa e dos filhos.

IS – E como ficam os filhos em relação a essas mudanças?

Osorio – O sentimento de posse, que era bilateral, diminuiu até mesmo em relação aos filhos. Antes havia um entendimento de que os pais eram donos do destino dos filhos. As mudanças no comportamento sexual, com o advento dos métodos anticoncepcionais, e da expectativa de vida, também impactam nessa transformação, pois há o convívio de três ou quatro gerações diferentes na mesma família, algo impossível no início do século passado. Esse é o momento da geração canguru, no qual os filhos ficam por mais tempo na residência paterna e iniciam as suas vidas independentes mais tarde e com mais formação. Até mesmo o ninho não fica mais vazio, pois quando os filhos saem de casa, o espaço é ocupado pelos avós.

IS – Essa crise é então uma grande oportunidade?

Osório – É uma ameaça e uma oportunidade ao mesmo tempo. As relações hoje são mais abertas, francas e afetivas entre as gerações. As pessoas só devem ficar unidas pelos laços de bem querer e não por necessidade. Inclua nesse cenário a relação das diversas orientações sexuais e como o respeito a essa diversidade é construído. É importante destacar que toda mudança traz a necessidade de adaptação a essa nova realidade. Um bom exemplo é o da transformação tecnológica que nos demanda esse mesmo tipo de adequação.

Luiz Carlos Osorio – Médico psiquiatra, especialista em psiquiatria de crianças e adolescentes. Psicanalista titulado pela International Psychoanalytic Association (IPA) e grupoterapeuta com formação em psicodrama e em terapia familiar. É fundador e diretor técnico da GRUPPOS, entidade formadora de grupoterapeutas e terapeutas de família, e consultor de sistemas humanos. Osorio também é autor de mais de 25 livros sobre adolescência, psicanálise, grupos, casais e famílias.

 

Ficou interessado no livro Como trabalhar com sistemas humanos: grupos, casais e famílias, empresas? Acesse o site da editora e saiba mais sobre ele.