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Family Office: o que é e quando faz sentido

family office

Family Office é uma estrutura de apoio às famílias empresárias e investidoras já muito tradicional na Europa e nos Estados Unidos – regiões em que a industrialização e a economia se desenvolveram há muito tempo, juntamente com as boas práticas de gestão e governança. No Brasil, este movimento começou mais tarde, na década de 90.

Por aqui, o termo é bem difundido no mercado financeiro devido a associação com os “Multi Family Offices” – gestoras de ativos financeiros que trabalham para diversas famílias clientes. No entanto, é ainda pouco discutido no contexto da governança familiar. Isto se dá, principalmente, pela falta de conhecimento sobre o papel desta estrutura e por um entendimento limitado do que representa um patrimônio familiar.

Devido à associação do termo com o mercado financeiro, as pessoas tendem a pensar que Single Family Office, ou simplesmente Family Office, tem o propósito de realizar uma gestão direta de ativos financeiros demandando uma estrutura sofisticada, cara e com profunda expertise interna de investimentos. Em outros casos pensam que, por não entender de investimentos, não poderiam ter Family Office. Ou ainda, é muito comum que pensem que Family Office é solução somente para aqueles que vendem seus negócios.

A associação do termo “patrimônio” somente à riqueza financeira também dificulta que mais famílias se identifiquem com essa estrutura. É preciso considerar que o patrimônio familiar é composto não só pelo Capital Financeiro, mas também pelos capitais Intelectual, Humano, Social e Familiar. Então, se o Family Office “atua na gestão de patrimônio familiar”, deveria abranger o conceito de maneira ampla.

Diferentes pesquisas mostram que o grande objetivo de empresários é perpetuar a sua empresa na família por gerações. Este pensamento, somado a um desconhecimento sobre o papel do Family Office, faz com que estes não vejam sentido nesta estrutura para apoiar a sucessão, pois identificam somente na sua empresa o caminho para a perpetuidade.

Enfim, diferentes estigmas bloqueiam esta pauta em contextos que não estejam relacionados ao mercado financeiro.

Mas afinal, o que é o Family Office?

 

“Family Office é a estrutura transgeracional que dá apoio à Familia Investidora na busca de seus objetivos de maneira alinhada e sustentável no longo prazo”

Fonte: A Família Investidora e o Family Office, 2017.

 

Considerando que as famílias que detém negócios e riqueza relevante na maioria das vezes tem objetivos e uma visão de múltiplas gerações familiares, o Family Office abrange um conceito muito mais amplo do que a gestão de ativos. Em duas ou três gerações familiares, ou de 50 a 75 anos à frente, a empresa familiar atual ainda fará sentido? Quais empresas existirão? Quais instituições financeiras estarão prestando o melhor serviço no mercado? São perguntas ainda sem respostas.

No entanto, se a família, nas suas diferentes gerações atuais, estiver alinhada ao objetivo de permanecer unida no longo prazo e deixar um legado para as futuras gerações, um cenário futuro fica claro: será necessário um sistema de governança robusto que se adapte às mudanças da sociedade e da economia, resiliente a eventuais crises familiares e que garanta sustentabilidade financeira, enquanto a família usufrui de sua riqueza para atingir seus objetivos. Como mostra o conceito destacado acima, este é o papel do Family Office.

Sua função passa por apoiar a família no longo prazo, mantendo a disciplina do sistema de governança; executando e/ou monitorando atividades-chave de controle de receitas, despesas e rentabilidade do seu capital financeiro; avaliando o sentido das suas participações societárias e desempenho de gestores externos; fomentando a preparação dos membros familiares para exercer o papel de sócios e a união familiar e; tantas outras atividades que podem fazer parte de seu escopo.

Sendo assim, o Family Office passa a ser o veículo que acompanha a família na sua jornada de longo prazo e, para ser capaz de durar por gerações, a família deverá adotar um mindset de Família Investidora.

 

A Família Investidora possui uma visão global do seu capital financeiro que inclui as empresas da família, participações societárias, imóveis, fazendas e todos seus bens e investimentos financeiros como parte do patrimônio. A grande diferença para a mentalidade de uma “família empresária” é que o negócio da família passa a ser visto como uma “investida”, um ativo tão importante quanto os demais de seu portfólio.

Fonte: Três Conceitos fundamentais na busca pela perpetuação do patrimônio familiar, 2016.

 

Com isso, surge a importância da Governança Patrimonial como outro conceito fundamental na busca pela manutenção e crescimento da riqueza familiar no longo prazo. Todos os ativos passam a ser gerenciados com o mesmo profissionalismo já buscado em empresas operacionais.

Como exemplo, algumas alterações na rotina podem ser citadas: o Comitê de Investimentos do Family Office exerce papel similar ao Conselho de Administração de uma empresa na medida que supervisiona e orienta os gestores dos ativos, buscando seu melhor desempenho e alinhamento estratégico com as demandas dos sócios; A Política de Dividendos da família considera a capacidade de geração de caixa de todos ativos, dividindo uma carga muitas vezes demandada somente da empresa operacional e; A rotina de prestação de contas passa a contemplar relatórios consolidados onde a família enxergue claramente a importância de cada tipo de ativo no montante total, na rentabilidade, na liquidez, na gestão de riscos e etc.

 

A Governança Patrimonial é um conjunto de práticas que visam o total alinhamento de interesses entre as decisões tomadas na gestão do patrimônio e os objetivos da família detentora deste patrimônio.  Assim como no contexto corporativo e familiar, esta estrutura é composta por órgãos de governança, políticas e regimentos.

Fonte: Três Conceitos fundamentais na busca pela perpetuação do patrimônio familiar, 2016.

 

O fortalecimento destes conceitos no Brasil, juntamente com um amadurecimento dos investidores brasileiros que demandam uma dinâmica cada vez mais profissional na relação com o mercado, faz com que o número de Family Offices no Brasil cresça a cada ano. A maneira como as Famílias se organizam e montam suas estruturas é muito particular. A maioria opta por terceirizar boa parte das atividades de investimento a Multi Family Offices, bancos ou outros gestores externos. No fundo, cada um enxerga um propósito no seu patrimônio e no seu Family Office. Assim, cada estrutura adquire uma forma única, correspondente ao objetivo de cada família.

 

Artigo publicado originalmente no site na INEO – Centro de expertise em Single Family Office.

Por Marcelo Geyer Ehlers, consultor parceiro do Instituto Sucessor. Cofundador da INEO.

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